29 de maio de 2024

Francisco Nery Júnior – Um pé de cambucá

Por

Redação, sitepa4

O cambucá ou cambucazeiro, é uma árvore frutífera nativa da zona litorânea da Mata Atlântica.

 

Por Francisco Nery Júnior

Pouquíssimo conhecido, o cambucazeiro já foi parceiro apreciado pelos caboclos da zona litorânea da Mata Atlântica. Hoje, é pouquíssimo conhecido. Seu fruto, o cambucá, é semelhante à jabuticaba. A polpa e a parte carnosa da casca podem ser aproveitadas no preparo de doces, sucos, licores, sorvetes e geleias. A árvore é endêmica, exclusiva da região (google).

O nosso pé de cambucá e uma roseira cobrindo a banda da varanda compõem a casinha simplesinha , coberta de sapê (ou sapé), descrita na música de Heckel Tavares, incorporada ao nosso cancioneiro e cantada por Gilberto Alves. Uma delícia. Ela descreve um episódio às vezes inevitável da vida dos seres mortais, a cujo final não gostaríamos, o leitor e o autor, de chegar. A propósito, sapé é uma gramínea, não apreciada pelo gado, cujos caules são, após secos, utilizados para a construção de telhados de casas rústicas.

Caboclo, casinha rústica, um pé de cambucá e sapé – lembrança da minha mãe. Gostaria de saber como foi a mãe dos meus leitores. Aquela distante a trabalhar fora de casa para garantir e complementar a renda familiar ou a outra, dona de casa, em contato direto com os filhos a lhes fomentar o crescimento sadio? De minha parte, como foi bom a minha mãe, mãe do lar a nos contar, a nós todos os filhos, histórias como a casinha de sapé com banda de varanda, sabiás no cambucazeiro e, ao meio-dia, o almoço saboroso e inesquecível em cima da mesa! “Ó que saudade da aurora da minha vida…”

A aula da casinha simplesinha foi dada, por minha mãe, já foi dito, a minha irmã menor e a mim. No nono filho, o júnior – eu – deveria ter terminado a produção. Mas um escorrego, após quase quatro anos de controle, trouxe a caçula – que me fez perder o trono. Para ela e para mim, com a voz aveludada de um anjo do céu, a minha mãe cantou a música.

Estamos na perda do trono. Pelo que me lembro, nada me incomodou. Eu até estranhava quando parentes mais velhos comentavam que eu havia perdido o trono. O fato é que veio a irmã caçula. Repito que nada me incomodava. Como sempre existe um porém, eu não entendia a postura da minha mãe na hora de arbitrar as querelas naturais entre minha irmã e eu. Eu nunca tinha razão. Além de homem, eu era mais velho. Teria que ser superior. Mesmo abaixo dos dez anos, eu, naquela fase, gostaria de ser tratado com isonomia, em igualdade de condições. Mas minha irmã sempre, sempre tinha razão! Ela, ela tirava proveito. Usava e abusava. E eu me irritava.

O argumento de eu ser mais velho e homem, sempre alegado pela minha mãe, não me convencia. O meu “entendimento superior”, evocado por ela, por ser do sexo masculino e mais velho não fazia sentido na minha cabeça de um menino de menos de dez anos.

Hoje, eu teria tirado de letra. Não me aperrearia. Viveria com a minha irmã em plena détente, ou entendimento. Pra que brigar, consumir-se com um aspecto lateral da convivência humana? As mulheres, as mulheres sempre serão o sexo frágil, a parte mais fraca e a vida sempre seguirá em frente. Sem elas, impossível a complementação da vida em dupla. Complementação, no nosso contexto, tem o valor de interação em igualdade de condições.

O papo poderia se estender tomando mais um pouco de tempo do leitor que precisa trabalhar se preparando para enfrentar a Reforma Tributária do Governo Federal. Resta saborear a letra e a música de uma produção poética que nos enche de saudade e gozo espiritual, tão bem passada para mim e para minha querida irmã por uma mãe cheia de conteúdo saudável e produtivo.

“Vancê tá vendo essa casinha simplesinha toda branca de sapê? Diz que ela veve no abandono, não tem dono, e se tem, ninguém num vê. Uma roseira cobre a banda da varanda e, num pé de cambucá, quando o dia se alevanta, Virgem Santa, fica assim de sabiá.” (…)

 

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