19 de abril de 2024

Francisco Nery Júnior: Tombo, bendito tombo – para os amantes da crônica

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REDAÇÃO - PA4.COM.BR

Desnível nas calçadas de Paulo Afonso. Foto: Arquivo/TV São Francisco

Em Toulouse, vi uma senhora levar um tombo. Foi o único que testemunhei na França. (Um “spike” havia sido esquecido no chão do Capitólio na festa da noite anterior.) Nas calçadas da França, não se leva tombo. Nas calçadas de Paulo Afonso, a vontade é adiantar o uso da bengala. Só não a uso, então, por proibição expressa da esposa e por desconfiar que nossos órgãos de segurança temem o uso da bengala como arma pelos malandros. Há infinitas maneiras de transformar as saudosas bengalas em espadas e punhais.

 

Tombo é terrível. Para os mais velhos, pode ser fatal. Uma bacia quebrada quase sempre significa o começo do fim para os que a ética – ou a moda – manda chamar de terceira idade. Após vinte anos de casamento, uma das principais diversões da minha mulher é contar os tombos que levo nas calçadas da nossa cidade. “Levante os pés”, costuma dizer. “Olhe por onde anda”, costuma bradar. Não adianta. Os tombos se fizeram os meus inimigos mortais; renitentes, perigosos, insensíveis e brutais.

 

Interessante que, todas as vezes que levo um tombo, vou mais para a frente. Ando mais rápido. Até ganho a parada para a minha esposa, mais nova do que eu. Me recomponho, empertigado me torno e, altaneiro, prossigo. E chego a bom termo. Repetindo a sabedoria popular do Nordeste, os tombos botam o cabra pra frente. A senhora francesa do primeiro parágrafo continuou a marcha para a frente com muito mais altivez. Caminhou mais segura. Alcançou com mais segurança o seu objetivo.

 

Desnível nas calçadas de Paulo Afonso. Foto: Arquivo/TV São Francisco

O leitor sabe bem que o inimigo, muitas vezes querendo fazer o mal, faz o bem para o desafeto. Já leu e sabe que [isto] está escrito. Lembro que logo após terem sido demitidos do Colepa, o professor Marcos foi admitido como professor da Universidade Federal da Paraíba e o professor Hilton passou no concorridíssimo concurso do Banco do Brasil. Se Moisés não tivesse sido “demitido” da corte do Egito, hoje estaria a jazer numa tumba poeirenta do Vale dos Reis.

 

Assim sendo, benditos os nossos tombos. Nada de prostração. Nada de ficar no chão. Nada de resmungo ou desilusão. Mesmo que venham acompanhados do inevitável e redentor palavrão, o importante é a volta por cima.

 

Quanto aos causadores dos tombos, nada a acrescentar. A prestação de contas, esta não está na nossa área de competência.

 

Francisco Nery Júnior







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