27 de maio de 2024

CRÔNICA – Um pai e um filho (Francisco Nery Júnior)

Por

Redação, sitepa4

Por Francisco Nery Júnior

Ele foi um pai de dez filhos. Quero dizer dez que sobreviveram. Era o tempo das vacinas insipientes ou inexistentes. Eu me refiro a Francisco Nery da Silva, dos tempos em que ter filhos era benção dos céus. Ou do tempo em que “tem que ser quantos Deus quiser”.

Foi um pai, principalmente para mim, o penúltimo, o filho da velhice quando os arrufos e as exigências vão amolecendo. Disso tirei proveito, sob os olhares enciumados dos irmãos mais velhos.

Se um nerd, não sei. Mas sabido, sim. Matreiro talvez. Os olhos começando a enxergar e a cabeça a entender um pouco do mundo competitivo a que havia chegado, logo observei o velho rodeado de livros e deles a fazer citações. Por aí enveredei.

Entrei na escola pra valer e dela tirei proveito. Paro por aqui. Dispensemos as conquistas. Seria cabotino se continuasse. Mas o fato é que conquistei o velho e a nossa amizade resistiu a todas as perversas investidas. Até o fim quando, em minhas mãos impotentes, ele deu o último suspiro.

Prosseguimos, isto é, ele prosseguiu. Sempre a tiracolo, lá ia eu ao lado do velho para palestras, conferências, recitais, ensaios e concertos. Certo, às vezes bocejava e dormia. Muitas vezes nada entendia. Meu irmão mais velho mesmo duvidava da minha sinceridade intelectual. Mas o velho e responsável pai insistia.

Fomos a parques, museus e atentamente contemplamos o velho casario da antiga Salvador. Tocamos, muitas vezes, nas novenas do Senhor do Bomfim e na festa do Senhor dos Navegantes. Assistimos a balés e recitais. Nos formamos. Ele formado e eu a me formar.

Na Cidade Baixa, há o Forte de São Marcelo, quase em frente ao Elevador Lacerda. Para Jorge Amado, o umbigo da Bahia. Pois o velho entendeu de visitá-lo – comigo. Chamou um daqueles canoeiros da Velha Bahia e lá fomos nós. De lá, do forte, banhados e inspirados na História agora aos nossos pés, a velha e triunfante Salvador. Estávamos a beber a cultura e a História da Bahia – do Brasil.

Ao final de uma das suas tocatas – ele era funcionário federal musicista da Orquestra Sinfônica da Bahia e, nas horas vagas, se virava nas tocatas para melhorar o pão nosso de cada dia – a turma saiu para um happy hour. Após uns tragos da turma, o vocabulário descambou para o imprevisto para o desconforto de um pai preocupado. Para nada serviu a observação de um dos pares que o adolescente presente – eu – “sabia melhor daquilo” que eles próprios.

Mais visitamos bibliotecas, cartórios e até cemitérios. Aprendi que cemitério significa lugar dos que dormem e necrotério lugar dos mortos. A troca dos termos veio depois do advento de Cristo.

Um dia, um certo dia, fui a Salvador, ele já estava internado no hospital – todo mês eu ia a Salvador – e não o visitei. Ele sentiu a minha “ingratidão” que eu agora expurgo com lágrimas nos olhos a escrever.

Nada justifica, porém. Mas não foi por maldade minha ou ingratidão. Foi a cabeça tonta de um jovem que não tinha a noção de quão importante é a visita a um doente internado. Para mim, nada mudaria. No próximo mês eu iria. Pensei mesmo que poderia incomodá-lo. A ida a Salvador era rápida e eu teria que voltar para aguentar o tombo em Paulo Afonso.

Antes que o leitor me condene sem dó nem piedade, sem recurso nem apelo, que fique registrado que eu quase acampei ao lado da sua cama nos seus momentos finais.

E o vi partir livre dos cuidados da vida que tanto o aperrearam, ele que se deu em função dos filhos que gerou, como costumava acontecer antes dos tempos do individualismo e do hedonismo e quando os meandros do clã eram mais um assunto de família que um assunto de Estado.

 

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