23 de abril de 2024

ARTIGO – Frente a um juiz (Francisco Nery Júnior)

Por

Redação, sitepa4

Por Francisco Nery Júnior
Frente a um juiz
                       O juiz Rosalino Almeida
As memórias são de Golda Meir, a primeira-ministra de Israel durante a guerra do Yom Kipur contra uma coligação de países árabes. Nas memórias, ela relata o peso da responsabilidade de estar no Salão Oval da Casa Branca a negociar a fundamental ajuda americana para a sobrevivência do seu país. “Ali estava eu, Golda Mabovitch, filha do carpinteiro Moshe Mabovitch, perante o presidente dos Estados Unidos a falar em nome do Estado de Israel”. Golda prossegue descrevendo a sua emoção e o seu estado de espírito.
Um dia tive que estar perante um juiz. Não importa que a querela fosse consensual. A lei impunha a presença das duas partes perante o vetusto juiz, no caso o juiz Rosalino dos Santos Almeida. Vetusto é o adjetivo que costumamos atribuir aos juízes. Uma das definições de vetusto é rabugento – que poderia não ser. Um termo de significante pungente e pujante, não deveria, também, significar rabugice. Poderia se ater a sério, compenetrado, responsável, até formidável que algo bonito e majestoso que impõe respeito, mesmo temor. Não obstante, eu estava na sua presença.
O juiz que confrontei se mostrou, todavia, uma peça avuncular, aquela figura de um tiozão disposto a livrar o sobrinho de uma enroscada qualquer, evidentemente dentro dos ditames da lei e da regência da jurisprudência. Foi essa figura que encontrei no juiz Rosalino a cujo sepultamento comparecemos vários de nós, membros da comunidade jurídica e da comunidade civil.
Tomamos conhecimento da sua morte em um hospital de Salvador, lamentamos a perda e continuamos a tocar a vida até sabermos que o sepultamento seria em Paulo Afonso e não na sua cidade de nascimento. A decisão foi do próprio juiz Rosalino com a concordância da sua esposa Bárbara Almeida. Ao lado do caixão, abatida e sem poupar adjetivos elogiosos ao marido morto, ela nos confirmou a informação.
Temos que reconhecer a decisão como uma homenagem póstuma do fundo da alma, tocante e significativa, à nossa cidade onde ele atuou como juiz por quase trinta anos. Nós, os seus cidadãos natos ou honorários, reconhecemos e agradecemos a consideração.

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