23 de maio de 2024

Andando na Apolônio Sales

Por

Por Francisco Nery


Em direção ao Hotel Portal da Ilha, fui atraído pela vitrina da Concessionária Honda e entrei. Preciso de uma nova moto e é lá que elas estão a aguçar o nosso desejo. As motos são práticas e consomem pouco combustível. Passam pelos inúmeros quebra-molas de Paulo Afonso mais facilmente e se acomodam em qualquer lugar. Os carros são pesadões e bebem muita gasolina. Difícil, por incrível que pareça, é escolher o modelo.
 
Lá dentro estava Nicholson, o filho – não o pioneiro que desfilava com garbo no Dia da Independência, nem sempre entendido pelos mais novos. A vida é outra, a cidade se firmou e o complexo hidrelétrico está consolidado. Ainda há o que fazer na área e esperamos que o Governo Federal feche o ciclo de aproveitamento do Rio São Francisco. Nicholsinho ensaiou me sugerir algum modelo, ele que se diz general em vida passada. Ponderei sobre a necessidade da preocupação com a vida futura. Interessante que as pessoas que se consideram reencarnadas foram generais e príncipes, poetas e menestréis. Quase nunca garis ou porteiros, desempregados ou desvalidos. Considerando a verve e a agressividade empresarial de Nicholson, ele deve ter sido mesmo general; e dos bons!
 
Deixei o encanto das motos de lado e me dirigi ao Portal da Ilha para fazer duas reservas que me foram encomendadas. Na entrada, sentada com toda a calma numa poltrona, cabelos vermelhos combinando adequadamente com as roupas muito bem escolhidas, comia Lúcia, mulher de Pacífico, o dono do hotel, algo que me pareceu melão com açúcar. A calma peculiar de Lúcia a impedia de comer avidamente o petisco que parecia realmente apetitoso. Com sua tradicional complacência, o marido olhava de longe. Tinha um sorriso manso de canto de boca vendo na esposa a parte que o completa.
 
Fomos ver as novas instalações do hotel sempre em expansão. A casa vizinha dos fundos foi anexada, o poço do elevador está cavado. Será o terceiro elevador de Paulo Afonso fora da área das usinas da Chesf. Aristóteles Onasssis disse, certa vez, que se você não estiver desejando sempre mais, você terá sempre menos. O que poderia parecer ganância é na realidade aperfeiçoamento e crescimento. O seu crescimento será sempre o crescimento de todos: mais consumo, mais oportunidades, mais impostos, mais exemplo. Aquele que enterra seus talentos – está escrito -, será duramente castigado. Ainda me lembro das palavras de Pacífico após instalar sua primeira pousada na cidade: “Eu não lhe disse que iria conseguir?”
 
Quero crer que as palavras acima servem de incentivo para todos os pauloafonsinos de talento. Querer é poder no sentido de estabelecer foco, selecionar prioridades, juntar forças e agir. Alguém já disse que oração sem ação é tentação. O texto poderia estar chamando a atenção para a exiguidade da vida. Vamos voltar para o pó e qual o bem de tudo isto? Aposentados, já não mais crianças, os dois empresários poderiam muito bem estar rodando o mundo. Paris, Londres,  Oriente Médio, Austrália, Canadá ou mesmo Disneyworld. Seria uma questão de procurar cercear o ímpeto dos outros. Quem está, afinal, autorizado a “podar” a iniciativa do seu semelhante? O Império Romano foi um pouco além, com classe e autoridade. Os conquistadores recebiam a coroa de louros e desfilavam em carro aberto. Eram ovacionados pelo povo. O Império dos Césares, que cultivava as artes e primava pelo direito, compensava com soldos adequados os seus soldados e distribuía pão e farinha aos seus cidadãos, colocava, não obstante, ao lado, meio atrás do herói que desfilava, um funcionário do governo a murmurar de quando em quando em seus ouvidos: “Lembra-te que és pó e ao pó voltarás.”
 
Os romanos, de quem descendemos e de quem herdamos a língua, dominaram o mundo por cerca de 600 anos. Foram tão impositivos que se esfacelaram em disputas internas e deixaram o mundo na idade média, a chamada idade das trevas. Tiveram a noção e a preocupação de chamar a nossa atenção para a exiguidade da vida. Nós outros ficamos por aqui louvando e agradecendo a todos que, enquanto vivos, estão a cooperar para o desenvolvimento da nossa cidade.
 
 
Francisco Nery Júnior

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