3 de julho de 2022

PT: meu ParTido; minha decepção…

O contexto político em que vivemos atualmente no Brasil – considerando as explosivas denúncias de ligações e transações financeiras ilícitas, entre o PT, órgãos do Governo Federal, parlamentares e empresários, tem provocado uma inquietação, um mal estar muito grande em mim, um sentimento que procura me convencer de que a construção histórica do qual somos herdeiros parece que não tem mais como se viabilizar.


Perdemos a razão de ser? Tenho, às vezes a impressão de estar presente em um debate permanente e exaustivo – promovido pelas pessoas próximas a mim, pela mídia e por mim mesma mediante as perguntas que me são feitas, que me faço e que nem sempre tenho condições de responder, já que não disponho dos elementos satisfatórios para construir essas respostas. Ainda faz sentido o PT? Tudo que é sólido se desmancha no ar? Esta sensação de déjà vu me remete ao ano de 1989 quando os pensadores do capitalismo decretaram o fim da história, a morte da utopia e do sonho socialista – segundo eles, pulverizados nos escombros do muro de Berlim. Lembro o sentimento de desânimo e pessimismo que assolou todas as esquerdas. Ainda há lugar no mundo para a utopia?


Em 1992, Paulo Freire publicou a Pedagogia da Esperança um reencontro com a Pedagogia do Oprimido e foi por meio da leitura desta obra que consegui repensar a situação e principalmente com ele questionar o discurso cínico da nova (des) ordem mundial que tentava nos proibir de sonhar com uma sociedade inclusiva. A dificuldade de compreender e interpretar adequadamente a atual situação provoca essa necessidade de escrever, ler, dialogar, buscar nestes mecanismos argumentos honestos que possam permitir uma releitura dos acontecimentos que sem dúvida problematizam e exigem uma reatualização do pensamento petista.


Avalio esta reação como uma presença da esperança freireana: Não sou esperançoso por pura teimosia, mas por um imperativo existencial e histórico, porque nega a lamentação inicial, que embora seja necessária, deve passar deste estágio e avançar sob pena de produzir uma imobilização frente aos fatos, além de alimentar a perigosa crença presente no discurso fatalista do senso comum de que as coisas são assim mesmo, todo político é corrupto, e para ser mais contemporânea: Somos todas e todos Robertos Jefersons. O exercício e a decisão de não aceitar fazer parte deste coro, permite a busca de novas ressignificações políticas, que a meu ver, passam necessariamente por uma auto-avaliação no âmbito do Partido dos Trabalhadores – este momento exige de nós, filiados e filiadas maturidade para enfrentar nossas contradições. Ter coragem de investigar as acusações, encaminhar as punições adequadas e, sobretudo denunciar possíveis injustiças.


O que não podemos é assumir a posição licenciosa de passar a mão na cabeça de companheiros/as implicados, mas também não podemos patrocinar em nome de uma suposta posição ética, uma ação de caça as bruxas. Daí que um comportamento esperado, em nome do projeto maior – as propostas que construímos nestes anos todos, seja o reconhecimento pessoal ou coletivo dos erros, por parte daqueles/as que porventura tenham algo a dizer e a assumir diante do Partido e da sociedade brasileira. Não cabe neste momento abafar, “administrar” – prática que para algumas de nossas lideranças, tem significado suplantar, escamotear, esconder debaixo do tapete fatos suspeitos ou constatados.


A superação dos conflitos só será possível se tivermos capacidade para explicitá-los, pagarmos o que tivermos que pagar e assim talvez, teremos uma chance de resgatar nosso projeto utópico e passarmos a limpo nossa história. A negação dos erros, a arrogância farisaica e a crença na memória curta do nosso povo nos iguala ao que tem de pior do conservadorismo das elites políticas do nosso país. Neste sentido, perderemos uma chance histórica de nos reinventar e continuar representando de forma legítima e inequívoca uma alternativa para o conjunto da sociedade brasileira, o que implicará diretamente no sério risco de comprometermos a reeleição do companheiro Jaques Wagner e a eleição da companheira Dilma Roussef, tendo em vista a agenda eleitoral de 2010.


Somos vítimas desse escárnio aqui na nossa querida Paulo Afonso: vivemos uma “democracia” no PT, onde os “donos” digladiam-se, numa batalha feroz pelo poder, pelo status, pela posição e pelo vil metal. A minha cidade, hoje, é a cidade dos muitos “PTs”: são muitos “proprietários”, muitos “donos”, que não conseguem enxergar, nas suas insanidades, que o brilho resplandecente da nossa estrela cada vez mais se torna opaco, fraco, quase não consegue iluminar…


Entendemos que há necessidade de revermos nosso programa político, refletirmos sobre o conceito de governabilidade – em nome da governabilidade na maioria das vezes, negociamos sonhos e negamos nosso compromisso com a transformação social, em função disso, acabamos por produzir ações paliativas, inconsistentes e principalmente distanciadas das promessas que permitiram nossa chegada até aqui.

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