6 de julho de 2022

Perseguição Política ao Morto

A perseguição política no Sertão do Nordeste sempre foi implacável. Era muito mais cruel, algumas décadas atrás. Infelizmente, pouca coisa mudou na atualidade; eu diria até que a democracia ainda não raiou, na sua plenitude, nestes rincões do Brasil, inclusive em nossa região. Aqui, o sujeito tem pouca liberdade de escolha. Se votar contra quem está no poder, principalmente os mais pobres terminam “comendo o pão que o diabo amassou”. Não arruma emprego nas obras públicas, não recebe nenhum auxílio social e nenhum benefício que deveria ser estendido para todos e que ficam restritos apenas aos protegidos do grupo político vencedor, contrariando a Constituição Federal, pois não é respeitado o direito sagrado do voto livre e secreto, e a determinação do benefício coletivo sem discriminação.

Num município próximo a Barra do Mendes, o grupo político do prefeito havia vencido as eleições e como era de prática comum, começou a operação perseguição. Sujeito suspeito de ter votado contra tinha que provar a qualquer custo sua fidelidade eleitoral para receber um remédio; funcionário municipal que tivesse votado contra era, sumariamente demitido, além de outros absurdos que faziam e fazem do Brasil, um país atrasado politicamente, comprovando ainda que certos municípios, ainda funcionam como verdadeiros currais eleitorais, onde predomina o famoso “voto de cabresto”.

Muitas vezes, são os próprios puxa-sacos do prefeito, especializados nos fuxicos, que exigem a punição dos chamados infiéis. Não é a toa que numa eleição anterior em nossa cidade, a música de maior sucesso dizia exatamente assim no seu refrão: “quem não agüenta pau no lombo vem pra nossa companhia”.

Depois das eleições nessa cidade, perto de Barra do Mendes, a operação denúncia e perseguição estava a pleno vapor, como ocorria em quase todas da região. Os bajuladores investigavam todos minuciosamente, só se ouvia as especulações: “será que fulano votou?” Dizem que beltrano foi contra!”, e assim continuavam o trabalho dos fuxiqueiros profissionais.

Todo prefeito, logo depois que se elege, começa a fazer algumas reformas para o povo pensar que ele vai ser diferente, que vai trabalhar honestamente em prol do povo. Mas, na maioria dos casos é pura enganação. Após as eleições, o prefeito e sua equipe estavam reformando o velho cemitério da cidade que estava em estado lastimável: as paredes caindo, o mato encobrindo os túmulos, a situação estava feia.

Chefiava a equipe o velho Marculino, dando ordens e liderando os trabalhos. Acontece que o velho Marculino era um dos que denunciavam os suspeitos que tinham votado contra. A construção da parede do velho cemitério continuava em linha reta, com a abertura das valas para o alicerce, quando se depara com um tumulo recente, bem na frente da parede; os pedreiros param o serviço e resolvem consultar o velho Marculino sobre o que fazer, ele logo pergunta:



__ Quem é que tá enterrado nesta cova?

Os pedreiros respondem depois de olhar o nome no túmulo;



__É do Nêgo Cosme, aquele filho de Maria que morreu logo depois das eleições !!

Um fogo de raiva e inquisição subiu pelas ventas do velho Marculino, que tinha uma concepção de que, quem era do seu lado político era gente boa e quem era contra não valia nada, não tinha caráter nenhum. Ele esbravejou:



__Aquele Nêgo descarado, filho daquela velha sem vergonha que sempre votaram contra a gente!! pois faça um desvio no muro e deixe esse safado de fora do cemitério.

E assim, pela primeira vez na história, um morto sofreu uma cruel perseguição política. Os puxa-sacos depois disseram: “Bem feito…quem mandou votar contra !!”.

MANDINHO

http://recantodasletras.uol.com.br

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